"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos"

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12/09/10

O Ladrão de Palavras!

Há muitos anos, havia um homem que roubava palavras. As nossas melhores palavras. Metia-as, cuidadosamente, num saco de linho e desaparecia. Para ser sincero, na nossa aldeia, que uma sebe de montes abraça, nunca ninguém viu o rosto do homem e ninguém lhe sabia o nome. Mas, pela manhã, as pessoas acordavam pobres. Pobres, sempre mais pobres e tristes.

As palavras, nesse tempo, eram de ouro.

O homem introduzia uma palhinha invisível no nosso silêncio e apartava as palavras. Da mesma arte se servia para desencaminhar palavras dos livros e dos jornais. Não as roubava todas, porque isso daria muito nas vistas. Ele aprisionava as palavras alegres, as mais luminosas, as nossas melhores palavras — e nós sobrevivíamos no meio de palavras sem sabor.

Palavra insípida é como fruto desconhecido do sol.

Cada dia vivido, menos palavras havia para agasalhar a tristeza. Era como se a mãe quisesse fazer um pão-de- e não houvesse açúcar; como se nós fôssemos abelhas proibidas de produzir mel.

Impedidos das palavras luminosas, emagrecia a imaginação: e assim seria impossível pedalar até ao fim dos sonhos. O sonho, na nossa aldeia, era veludo que enxugava a melancolia.

Nós conhecíamos o local onde o homem abrigava o saco da alegria. Ficava num bosque cerrado, nem o sol podia furar a copa das árvores. O bosque estava povoado de cogumelos: engordavam de sombra e de humidade. Alguns cogumelos atingiam a grandeza das árvores!

Nenhum de nós podia ir ao bosque. Entre outras palavras, ele roubou-nos a coragem. Também correu a notícia de que os cogumelos seriam venenosos. Todos os cogumelos, os pequenos — do tamanho de guarda-chuva aberto — e os grandes. Bastaria olhá-los e perderíamos a vida!

Com o andar do tempo, a nossa tristeza transformou-se em nuvem. E essa nuvem, de um momento para o outro, rasurou o sol em quase metade da aldeia: essa parte do povoado ficou sombria como o bosque.

Todos os dias, porque o silêncio era tecido de palavras sem sabor, a nuvem estendia o domínio. Temeu-se uma praga venenosa de cogumelos! Para afastar a maldição, pela manhã, queimávamos rama verde de pinheiro em redor das casas.

Os cogumelos, enfim, não levantaram a cabeça. Mas a nuvem, que medrava com o fumo da rama verde, tinha fome, imensa fome de claridade. Grande parte da aldeia, a dada altura, era noite. A calamidade! A calamidade, provocada pelo musgo verde, muito verde deu o primeiro sinal.

«Estranha doença!», disseram os velhos.

No rosto das crianças da aldeia despontou estranha barba, muito verde e húmida.

Testámos todos os xaropes caseiros e outras mezinhas da imaginação do povo Nada. Nada estorvava o avanço do musgo no rosto das crianças. E também de pouco valia ir ao barbeiro. Ele, com a costas da navalha, limpava a nossa cara, mas, na manhã seguinte, a barba irrompia com mais fulgor.

Os velhos disseram: «Ninguém pode ser homem antes do tempo, é contra as leis da natureza!»

Mandaram chamar o médico.

Não escondeu o espanto, o médico que veio de longe. Primeiro, por ver o dia e a noite no mesmo sítio e à mesma hora. Depois a surpresa multiplicou-se à medida que lhe surgiam meninos barbados e tristes. Apenas observou, com minúcia, uma criança, e achou remédio para rebater o mal de todas as outras. Abriu a pasta de couro, retirou um caderno e a caneta. Escreveu rápido. Entregou a receita, não aceitou o dinheiro da consulta. E partiu a toda a velocidade, como se a nossa doença alastrasse por contágio.

O ladrão de palavras estava junto de nós. Ninguém o viu, mas ele esteve sempre no meio de nós. Adivinhámos a sua presença pelas palavras que a palhinha invisível havia sorvido da receita:

«A sombra misturou-se com a tristeza. Só um , colher vezes dia

, , silêncio.»

A nuvem, nesse instante, cresceu largos metros: porque todos nós, velhos e novos, sem saber o que o médico nos havia indicado, ficámos ainda mais tristes. Mas a última palavra da receita (que o Ladrão terá achado de pouco valor para guardar no saco de linho), abria uma pista. Se descobríssemos o verbo que precedia silêncio, seria desvendado o mistério.

O automóvel do médico havia já dobrado o monte, e foi então, de forma inesperada, que se ouviu o grito:

«É preciso prender o ladrão de palavras!»

O grito atravessou a aldeia, acordou os cães do lado onde era noite, assustou as galinhas da parte onde era dia.

Uma mulher ergueu a voz e os braços na direcção da nuvem: afrontou (afrontar, o verbo que procurávamos) o silêncio. De repente, outros habitantes resgataram a coragem, a palavra coragem, adormecida no bosque dos cogumelos!

A nuvem estremeceu, depois, como bicho do monte, fugiu espavorida. Num instante, o céu ficou leve, azul, imensamente azul. E sol, generoso, bebeu a nossa melancolia.

Em grande festa, o povo partiu à descoberta do bosque. Primeira surpresa: não havia cogumelos gigantes, muito menos venenosos. Mas o saco de linho estava lá, ao pé de um velho medronheiro. Abrimos o saco e o saco nada tinha!

Nesse dia luminoso, verdadeiramente luminoso, no saco de linho vazio prendemos o ladrão da alegria. Ele, afinal, era uma palavra — a palavra medo.


Francisco Duarte Mangas
O ladrão de palavras
Lisboa, Editorial Caminho, 2006

3 comentários:

Tânia Míriam disse...

Lindo,lindo, amiga Isabel!
Parabéns pelo post.
Uma semana de muitas bênçãos prara todos aí!
1001 Bjssss

Por toda minha Vida disse...

Olá, Isabel.

Passei para deixar um beijo em ti e nas princesas.

Beijo

Para ti uma histórinha minha.


Uma pequena história inacabada...


A folha em branco pediu uma alegria para menina que deitada estava ao lado do caderno que acabará de ganhar, então a pequena pegou sua caneta e lhe deu uma poesia, palavras com ou sem rima:
“onde moram os sonhos?
Nas asas da borboleta?
Nos meus olhos fechados?
Onde mora a saudade?
Em uma casa no meio do nada?
Na vida adulta que custará há chegar?
Ou em um primeiro beijo roubado?”

Insatisfeita a folha que agora tinha todas as perguntas da garotinha pediu uma ilusão...
Então a menina desenhou flores, borboletas, um dia de sol com uma chuva fininha para refrescar.
A folha agora era a primeira página de um possível livreto, mas, tinha o avesso e pediu...
- Quero um amor!
A menina desenhou um enorme coração, contudo, a página entristeceu e disse:
- Do que me adianta um coração vazio tenho que ter um sentimento dentro dele ou vários...
Pensativa a autora pensou em várias palavras até amor, porém, para ele chegar e ficar se lembrou que a página precisa ter duas expectativas:
E escreveu “futuro e esperança” e depressa foi até seu armário passou um batom rosa e beijou a página. Fechou seu caderno vestiu-se de fada e foi passear voando pela história que estava apenas começando.

Hanukká disse...

Olá,linda semana, bjos

O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor.
E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé.Romanos.


O AMOR AO PRÓXIMO -
O amor não é Eros, que sempre cobiça, mas Ágape, que jamais acabará.
A novidade, a originalidade do amor é ele não participar do círculo vicioso
que vai do mal ao mal e da reação à revolução.


O amor é “justiça equalizadora eterna” (Kierkegaard),
porque a ninguém justifica segundo o próprio desejo;
O amor edifica a comunidade porque unicamente procura comunhão;
O amor nada espera porque já atingiu o alvo;
nada procura, porque já encontrou;nada quer porquanto já realizou;
nada pergunta, pois já sabe;
não luta porque já venceu.
O amor não contradiz e, por isso, não pode ser refutado;
não concorre e, portanto, não é vencido;
não busca decisão e, conseqüentemente, ele próprio é a decisão.


O amor destrói os ídolos
porque não cria outros.

Karl Barth

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