"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos"

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28/02/26

A máquina de apanhar poetas – José Fanha

«Quando acabei o meu trabalho ninguém queria acreditar que ali, à frente de todos, estava uma máquina de apanhar poetas.
Para a festa de inauguração eu tinha convidado as pessoas mais importantes do país: o presidente de todos os enlatados e congelados, o grande polidor de moedas de 5 cêntimos, um repetidor de frases absurdas, alguns vendedores de ideias cinzentas, um treinador de futebol de botão e até um médico de almas, daqueles capazes de tirar nuvens de dentro da cabeça das pessoas e pô-las a nadar debaixo de água.

Mostrei-lhes os cálculos, os mecanismos e a máquina propriamente dita com as suas dobradiças e roldanas, o lançador de pétalas de rosa e as bandeirinhas de todas as cores.

Eu estava muito ansioso a ver a reacção deles enquanto todos olhavam muito desconfiados para a minha máquina. Passado pouco tempo começaram a tossir todos ao mesmo tempo e a dizer que o tempo estava a ficar fresco e que tinham de ir fazer as compras para o almoço.
Ninguém abriu a boca de espanto, ninguém ficou maravilhado pelo meu extraordinário invento, não me aplaudiram fervorosamente como eu esperava, nem sequer me deram uma palmada nas costas à laia de compensação.
“Se isso é uma máquina de apanhar poetas, apanha lá um poeta para nós vermos!”, disse-me o presidente que estava cheio de pressa de ir presidir para outro lado.

“Isso, isso!” repetiram todos, “Apanha lá um poeta para nós vermos!”
“Sabem… De momento é difícil… Não estamos na época dos poetas…”
“E qual é a época dos poetas? É a Primavera…? Ou será o Outono?”, disseram eles e riam-se de mim como se eu tivesse dito um grande disparate.

Percebi logo que todos os que ali estavam tinham um pensamento curto e não percebiam nada de máquinas. Ou, então, tinham-se afastado tanto da infância que não podiam entender que os poetas aparecem apenas na época do amor ou na do desespero.
Se eu queria que eles acreditassem na minha máquina de apanhar poetas tinha que fazer alguma coisa verdadeiramente estrondosa. Mas para isso precisava que houvesse um mínimo de poesia no ar.
Liguei o medidor de poesia mas não detectava nem uma réstea de poesia nuns mil kilómetros em redor.
A situação era muito difícil. Se queria apanhar um poeta, por pequenino que fosse, teria de ligar o programa super-especial de apanhar poetas a distâncias inter-siderais. Era muito perigoso. Nunca tinha utilizado aquele programa e receava que pudesse causar perturbações, explosões e confusões diversas.

Como não tinha alternativa, preparei-me e avisei que a minha máquina iria apanhar um poeta a grande distância, que podíamos passar por alguns momentos de grande abanadela e distribuí cintos de segurança e fatias de pão com manteiga a todos.

Quando chegou o momento carreguei no botão cor-de-laranja, fiz rodar o chupa-chupa de segurança e assobiei três vezes. A máquina começou a funcionar e, imediatamente, levantou-se uma grande ventania. Os meus convidados começaram a tremer muito, a abanar, quase a levantar voo.

Eu receava que fossem todos pelo ar ou que ficassem constipados. Mas não. De repente, no meio daquela terrível tempestade electro-poética, a pouco e pouco, de dentro do peito do presidente começou a sair o menino que ele já tinha esquecido que lá vivia.

Logo de seguida começaram a sair meninos do peito de cada convidado e todos esses meninos se puseram a brincar numa grande dança de roda.

O Presidente ficou um bocado desconfiado e, com um ar muito sério, perguntou quem eram aqueles meninos.

“Ora, ora…” responderam os meninos, “Somos crianças!”
O Presidente estava visivelmente incomodado. “Crianças… E que é que vocês, suas crianças, querem daqui?”
“Queremos cantar e dançar e queremos amor!”
O Presidente não estava a perceber mesmo nada. “Amor? O que é isso? O que é o amor?”
Um dos meninos respondeu com um sorriso sábio: “Ora…! O amor é um pássaro verde num campo azul no alto da madrugada!”
Ouvindo aquelas palavras, todos aqueles senhores muito importantes deixaram cair uma lágrima, lembrando-se do poeta que um dia tinham sido e, finalmente, perceberam que a minha máquina era um grande invento.

Bateram então muitas palmas, gritaram vivas, condecoraram-me com três malmequeres e fomos todos comer sorvetes.

José Fanha 




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