Era uma vez um lobo que tinha uma
varinha mágica e uma fada com unhas grandes e dentes aguçados. Ele não
era perigoso e encantava quem lhe pedisse, ela não era meiga nem gentil.
Havia também um livro vazio e solitário que queria contar uma história,
mas não a queria contar assim e pediu a ambos que trocassem de lugar
para as coisas ficarem mais como deviam ser, fosse lá o que isso fosse.
Ora
cada um deles vivia de um dos lados de uma ponte que ajudava quem
precisasse a trocar de margem. Nunca nenhum havia visitado a outra ponta
da ponte e pareceu-lhes que poderia ser uma excelente oportunidade de
conhecerem o seu lado, mas olhado de outro lado.
Esperavam que a aventura pudesse
permitir a tal transformação, mais desejada pelo livro que por eles
próprios, habituados que estavam a ser como eram. Mas a ideia de
aparecer nas suas páginas e ficarem famosos era assim como, para alguns,
aparecer na televisão: apetitosa.
Assim foi. Percorreram a
distância, cruzaram-se a meio cumprimentando-se e chegaram ao outro
extremo. Aguardaram. Aguardaram mais um bocadinho. Nada. O outro lado
nem parecia o mesmo sem si. Era assim como olhar para um espelho e não
estar lá. Ou parecer outro sem o ser.
O livro esperava a
transformação ansioso a ver se finalmente conseguia escrever a história
que lhe apetecia, com personagens reais iguais às que havia imaginado.
Nada acontecia.
O silêncio
que se escutava era quase assustador. Até o rio debaixo da ponte
emudeceu ao olhar para a cara triste e vazia do livro que perdera toda a
esperança de se preencher com as palavras que desejava.
Foi preciso
eu explicar-lhe que as histórias são como queremos, que nelas podemos
inventar quem quisermos, como nos apetecer, para os barulhos todos
regressarem e o mundo desemudecer. Ouviram-se algumas gargalhadas
da fada e do lobo enquanto trocavam novamente de lugar e a fada fazia
menção de o comer com as unhas postas em jeito de garra, ao mesmo tempo
que o lobo, com gestos delicados, fingia que a encantava com a sua
varinha mágica. O rio continuou a deslizar entre ruídos de conversa com
as pedras das margens e os peixes que aninhava em si. O livro abriu-se
num sorriso e pôs-se a contar histórias em voz alta.
As histórias,
essas, já as conhecemos. Um lobo muito mau a comer avós, a assustar
meninas ou porquinhos... fadas sempre boas aqui e acolá.
A vida real é para ser real.
Os livros, se quisermos, podem ser outra coisa.

Teresa Martinho Marques