Num dia claro de sílabas suspensas,
o verbo acordou com pressa no peito
e foi à loja da esquina do idioma
comprar flores de pétalas escancaradas
e uma caixa de chocolates
embrulhada em papel de metáforas.
Levava na algibeira
um futuro do indicativo
e nos olhos
um presente perfeito.
Bateu à porta da Poesia:
três toques, pausados,
como quem conjuga o silêncio.
— Sou eu,
disse ele,
sou o verbo que te move as manhãs,
que te acende as frases,
que te percorre os versos.
Venho declarar-te o meu amor
em todos os tempos
e modos.
A Poesia abriu a porta
com um sorriso entre vírgulas,
escutou-lhe a gramática do coração
e, serena como um ponto final,
respondeu:
— Não!
Foi um não breve,
mas irrevogável.
O verbo sentiu-se cair
do infinitivo ao abismo,
e o coração, outrora inteiro,
estalou em fragmentos sonoros.
Cada pedaço, ao tocar no chão,
transformou-se numa palavra:
Um fragmento tornou-se nome,
para dar corpo às coisas.
Outro fez-se determinante,
a medir o alcance do mundo.
Houve o que se tornou quantificador,
a contar as ausências.
Outro ainda fez-se pronome,
para substituir o que doía dizer.
Outro vestiu-se de adjetivo,
colorindo o que restava.
Nasceu um advérbio,
a explicar como chorava.
Saltou uma interjeição…
ai! - ecoando na rua vazia.
Escorreram preposições,
ligando o longe ao perto.
E ergueram-se conjunções,
tecendo pontes
entre o que foi
e o que poderia ter sido.
Espalhadas pelo chão da língua,
as classes de palavras
formaram um novo mapa do sentir.
O verbo, recolhendo-se,
aprendeu a conjugar-se
com prudência.
Estudou os modos do cuidado,
os tempos da espera,
a voz passiva da humildade.
E guardou para si
uma lição escrita em tinta permanente:
não se oferece todo o afeto
num só gesto,
porque há portas que se fecham
antes do ponto final.
Desde então,
quando ama,
o verbo distribui-se
em sílabas contidas
e deixa sempre
uma reserva de futuro
por conjugar.

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