Vinte anos depois de ter iniciado a minha vida de professora, confesso que este foi um ano que me provocou um certo desencanto...Estava habituada a ser mimada pelos meus alunos, a receber sorrisos e a recompensa pelo meu esforço; havia sempre uma cumplicidade, um sabor de vitória, a que me fui habituando ano, após ano.
Recordo o ano lectivo anterior...fui avaliada, tive aulas assistidas...até uma aula filmada, por ter um aluno autista, aula essa que não foi colorida, foi o normal, o que estava previsto, pois não pude planificar uma daquelas actividades que correm sempre bem...fui avisada no intervalo das aulas! Mas essa, como tantas outras, correu bem...o 6ºD fazia tudo, para que eu me sentisse realizada e faziam tudo para aprender, para evoluir, para obter sucesso. Trabalhavam mesmo!
Nunca saí triste ou desanimada da aula deles...As outras duas turmas ofereceram-me muitos dos bons momentos, das recordações que gostamos de lembrar, por nos fazerem sonhar.
Tal como habitualmente, terminei o ano com lágrimas, com sabor a despedida, a despedida custosa, pois essas três turmas, como muitas outras, ao longo da minha actividade docente, ficarão sempre no meu coração.
Mesmo agora que deixaram de ser meus alunos, há muitos que me enviam mails, que se correspondem comigo, que me oferecem os seus mais belos textos, pedindo opinião...ainda ontem, a minha equipa do "Pata Paper" era constituída pela Inês, a Bela, o Ricardo e o Edu do 6ºD do ano anterior e a Marta e o Sandro da turma deles, deste ano. É bom sentir que continuo a fazer parte da vida deles...
Mas se no ano anterior me custou separar deles, este ano anseio pelo fim! Não vou dizer que não tenho alunos que nunca esquecerei, na verdade, tenho muitos...Adoro os miúdos do 6ºF, pois essa turma faz-me sentir que ainda vale a pena. Nem uma só vez, me senti decepcionada com eles...pelo contrário, nessa turma sinto um carinho constante. Afinal, foi a única turma que, a certa altura do ano, percebeu que me sentia triste! Quando dei por mim, metade da turma rodeou a secretária, com ar preocupado, a perguntar se eu estava bem! Nunca os esquecerei.
Nesta turma, tenho alunos muito especiais. A maioria não tem resultados brilhantes, mas são dedicados e trabalhadores, são meigos e muito especiais. conquistaram-me para sempre! Nessa turma, não vai ser fácil dizer adeus. Também tenho nessa turma alunos de sucesso incondicional...o Igor é talvez o melhor aluno, que tive ao longo destes anos...Vou ter saudades, meu querido 6ºF.
Que dizer da turma E? Bem...uma turma muito inconstante, ora me parecem interessados e me fazem sentir importante, ora me deixam completamente desiludida! Tenho aí bons alunos, alguns que sempre trabalharam e que estimo, a não esquecer a Rita, a Andreia, a Karen, a Mariana...o Martim e o Sidónio...tantos outros! Não posso dizer que não gosto da turma, porém não me sinto encantada, como quando os conheci. Muitos deixaram de estudar e cooperar há muito tempo, as aulas tornaram-se muito diferentes, uma conversa pegada, um desconsolo para a alma...Claro que nem todos, mas certos comportamentos têm o dom de fazer desaparecer a magia...Sinto-os fartos da escola e de nós...a brincadeira parece ser o que os encanta e não as minhas aulas, como estava habituada...
E que dizer das duas turmas de Percursos Alternativos? Ter turmas assim, já por si, desencantadas com a escola, não é nada fácil! Algumas aulas de noventa minutos foram um verdadeiro tormento! Recusei-me a passar o tempo...afinal ser turma de percursos, na minha maneira de ver, significa aprender por outros caminhos...e como lutei por isso, quantos caminhos procurei e experimentei...Mas se algumas aulas me parecia ter obtido sucesso, logo a seguir sentia que estava a andar para trás! Não estava habituada a alunos que se recusassem a fazer o que quer que fosse! Aqui tive momentos de ter de "obrigar" a tentar...e isso já quebra qualquer encanto...Ler faz-se por prazer, só aprende a ler, quem quer...se nem queremos tentar, então...nem sei se vale a pena! Escrever, no caso de alguns alunos, ainda pior...Às vezes, já nem sabia o que inventar para tentar fazer algo gratificante e com algum sucesso, que representasse alguma aprendizagem...alguma evolução...
Também senti, pela primeira vez, o sabor amargo de me desobedecerem, de fingir que nem estou na sala, de me faltarem ao respeito!
Durante todos estes anos, tive alguns casos isolados de episódios menos positivos, mas logo ultrapassados e que não voltavam a repetir-se, nada como nestas turmas.
Mas o mais caricato foi que esses mesmos alunos que me feriam o orgulho, noutras ocasiões eram encantadores! Ora me entristeciam, ora me deliciavam, ora me deixavam furiosa, ora me ofereciam flores e desenhos, pois todos percebem facilmente que me agradam as ilustrações...Mas devo dizer que foi difícil e uma experiência pouco gratificante. Nada compensa o esforço e a dedicação e os episódios desagradáveis marcam mais que os positivos e custam a apagar...Ver a Isabel chegar à aula ao meio dia e vinte e cinco, quando a aula se inicia ao meio-dia...entrar sem bater à porta, nem pedir licença e ainda por cima, sair antes da minha autorização, porque deixei o Tiago sair três minutos antes de tocar e a menina se achou no mesmo direito, sair mesmo depois de informada que teria falta, sair e dizer "quero lá saber, vou bazar!"... decididamente, nunca pensei ter de aguentar isso! Muito menos de uma aluna que parecia trabalhadora e de repente parece estar numa "onda diferente", mas muito lamentável!
Ou ver o Amilton dizer palavrões, dar um pontapé numa cadeira e sair da sala, deixando-me atónita e incrédula...numa situação de todo imprevista, é algo que nunca imaginara antes! Esse aluno resolveu que não iria fazer nada, como tantas outras aulas! Enquanto eu ajudava um colega, atirou com um berlinde da janela abaixo e acertou numa menina que passava. Essa menina foi queixar-se e eu fui chamada à atenção por uma auxiliar, qué me apareceu de rompante na sala! Apenas disse:" Amilton, é por essas e outras que os professores ficam mal vistos!" Foi o suficiente para assistir àquela cena deplorável!
Não foi fácil...mas nem tudo foi complicado...gostei de dar aulas de Português Língua Não Materna. O grupo era pequeno, os alunos interessados e empenhados. Nenhuma aula me custou e sentia que valia a pena criar materiais, pois eles mereciam. Muitos dos bons momentos deste ano, devo-os a esse grupinho.