"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos"

"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos"

04/12/13

Teresa Martinho Marques: outra apaixonada pela "Arca dos Contos"

Personagem humana: fada 
Personagem animal: lobo
 Espaço: ponte
 Palavra-chave: transformação 
Ação: emudecer
 Objeto mágico: livro
 Caracterizações: perigoso 



" Era uma vez um lobo que tinha uma varinha mágica e uma fada com unhas grandes e dentes aguçados. Ele não era perigoso e encantava quem lhe pedisse, ela não era meiga nem gentil. Havia também um livro vazio e solitário que queria contar uma história, mas não a queria contar assim e pediu a ambos que trocassem de lugar para as coisas ficarem mais como deviam ser, fosse lá o que isso fosse. Ora cada um deles vivia de um dos lados de uma ponte que ajudava quem precisasse a trocar de margem. Nunca nenhum havia visitado a outra ponta da ponte e pareceu-lhes que poderia ser uma excelente oportunidade de conhecerem o seu lado, mas olhado de outro lado. Esperavam que a aventura pudesse permitir a tal transformação, mais desejada pelo livro que por eles próprios, habituados que estavam a ser como eram. Mas a ideia de aparecer nas suas páginas e ficarem famosos era assim como, para alguns, aparecer na televisão: apetitosa. Assim foi. Percorreram a distância, cruzaram-se a meio cumprimentando-se e chegaram ao outro extremo. Aguardaram. Aguardaram mais um bocadinho. Nada. O outro lado nem parecia o mesmo sem si. Era assim como olhar para um espelho e não estar lá. Ou parecer outro sem o ser. O livro esperava a transformação ansioso a ver se finalmente conseguia escrever a história que lhe apetecia, com personagens reais iguais às que havia imaginado. Nada acontecia. O silêncio que se escutava era quase assustador. Até o rio debaixo da ponte emudeceu ao olhar para a cara triste e vazia do livro que perdera toda a esperança de se preencher com as palavras que desejava. Foi preciso eu explicar-lhe que as histórias são como queremos, que nelas podemos inventar quem quisermos, como nos apetecer, para os barulhos todos regressarem e o mundo desemudecer. Ouviram-se algumas gargalhadas da fada e do lobo enquanto trocavam novamente de lugar e a fada fazia menção de o comer com as unhas postas em jeito de garra, ao mesmo tempo que o lobo, com gestos delicados, fingia que a encantava com a sua varinha mágica. O rio continuou a deslizar entre ruídos de conversa com as pedras das margens e os peixes que aninhava em si. O livro abriu-se num sorriso e pôs-se a contar histórias em voz alta. A histórias, essas, já as conhecemos. Um lobo muito mau a comer avós, a assustar meninas ou porquinhos... fadas sempre boas aqui e acolá. A vida real é para ser real. Os livros, se quisermos, podem ser outra coisa."

Também eu, já consegui textos fantásticos com "este jogo", que leva os nossos alunos por viagens infindáveis. Parece que a escrita, aparece como por magia!

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